Você não vale nada

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Vamos ser francos… Um cara como eu, criado sob leis do patriarcado, vendo o desdém diário ao qual mulheres eram tratadas, só podia ter me tornado um baita “machista escroto”, não? 
 
Pois é, até fui, mas não sou mais. Na verdade eu era machista sem saber que era. Difícil explicar, sou de uma cidade onde até as *mulheres são machistas! Um paradoxo, digno de TCC em curso de psicologia.
 
Nos anos 90 e 2.000, muitos paraibanos vieram trabalhar como cortadores de cana em NH, eles ficavam apenas durante a safra e ao fim, voltavam para suas cidades. Nessas idas e vindas, muitos ficaram por aqui definitivamente. Para resumir o enredo, os paraibanos também eram machista “pá caraio”, nos botecos, era comum encontra-los contando suas angustias que ficavam melhores ainda depois de uns tragos.
 
Alguns, incrivelmente, sustentavam duas famílias na Paraíba, uma em NH, e ainda ostentavam uns rolinhos… os caras eram “porreta”, mas tanto envolvimento emocional, vira e mexe, dava rolo de verdade. 
 
Sob essa ótica, eu escrevi duas canções, “Você não vale nada” acabei de finalizar. “Você não vale nada, mas eu gosto de você”, era a letra de um dos forrós mais tocados nos botecos da Paraíba, virou tema de novela e conquistou o mundo. Admito, ela também me influenciou, mas a principal influência dessa canção, além dos paraíbas, foi meu paí, ele era terrível, qualquer briguinha já era motivo pra jogar na cara da minha mãe que não devia ter se casado com ela e sim feito um contrato. O tal contrato era comum em novas uniões “instáveis” dos anos 70, pois servia como garantia de que a separação do casal não envolveria bens materiais, geralmente do homem.
 
De tanto ouvir esse lamento do meu pai, tornou-se algo normal pra mim e um dia tive a infelicidade de apresentar essa ideia, como uma possibilidade de união para a minha namorada, hoje esposa. Cris, ela ficou tão ofendida que até hoje me lembra disso. Então, descobri que eu era machista e não sabia. Onde já se viu casar-se em contrato? Quer dizer que se não der certo você devolve? Rompe o contrato? Reclama no PROCON? 
 
A música é narrada pelo ponto de vista do machista, do paraíba bêbado, que indignado, tenta desfazer o relacionamento, mas não quer sair no prejuízo, afinal, a imperfeição da sua parceira era apenas querer sua exclusividade.  
 
Dizem que filho não segura casamento, mas interesses  financeiros, sim! E levam os relacionamentos ao convívio forçado onde muitas vezes o desgaste pode acabar de forma trágica.
 
“Louco, só um pouco
De cachaça de paixão
De amor ou sedução
De desgraça com facada
Marmelada traição”
 
Essa canção me diverte, é leve, porém nem tanto. 

 

 

 

 

 

 

 

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