Sobre o que fala a música “Acreditar como Tomé”?

No dia 08 de agosto lancei minha “nova” música, um RAP, chamado “Acreditar como Tomé”. Muitos me conhecem como jornalista, mas de fato, também sou músico, produtor e compositor. Essa letra foi escrita, em partes, quando eu tinha 18 anos e recentemente adaptada para evidenciar uma critica aos falsos lideres religiosos que insistem em usar a fé para promover o ódio.
O dedo na ferida veio acompanhado de um web clipe:

Falar sobre religião sempre foi um tabu, principalmente em cidades do interior como Novo Horizonte onde se propaga um discurso hipócrita e destoado dos verdadeiros ensinamentos cristãos. Não podemos generalizar, mas muitas pessoas justificam ações ruins como sendo a “vontade de Deus” afastando de sua consciência a responsabilidade de seus atos.
Esse não foi o único gatilho, eu também queria criticar a passividade dos fiéis que absorvem pregações enganosas, sem contesta-las, mas falar ou escrever sobre isso, com certeza ofenderia alguém, então, segui o conselho do velho sábio: “quando lhe faltar palavras, cante!”

Como eu disse, a primeira parte foi escrita quando eu ainda tinha 18 anos, inicialmente ela se chamava “Apresente a Outra Face” e, apesar de começar bem, a mensagem não se sustentava e se perdia no fim, afinal, eu não tinha conhecimento, nem maturidade para falar sobre algo tão complexo como o existencialismo. Ouça a Demo gravada nos anos 90:

Inicialmente, tudo era um ensaio sobre como “Malafaias e Felicianos” conseguiam facilmente influenciar pastores que estão na linha de frente à repetir jargões obscuros que até Deus duvida.
Não sei vocês, mas quando alguém se auto intitula membro da família de bem, defensor da moral e dos bons costumes e coloca Deus, acima de tudo. Eu automaticamente dou um passo atrás. Uma pessoa boa, jamais precisará afirmar que é!

A angústia em ter que dividir a minha existência como gente dessa extirpe me fez estudar a fim de compreender melhor esse assunto, então, me deparei com a história de Tomé, um apostolo conhecido por ter questionado a veracidade da ressureição. Para muitos teólogos, essa sua “ousadia”, lhe rendeu o título de traidor.

“Se não vir, nas mãos d’Ele o sinal dos pregos, e não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e não introduzir a minha mão no Seu lado, não acreditarei!” (cf. Jo 20, 25).

Mas poucos falam o motivo de Tomé não estar presente na aparição – Tomé, não concordava com a estratégia dos demais apóstolos que, após a crucificação de Jesus, fugiram e se esconderam. É por isso que ele não estava presente quando Jesus fez a aparição milagrosa,

Tomé, supostamente foi o apostolo que continuou propagando os ensinamentos de Jesus, mesmo após ele ter sido cruelmente assassinado e quando os colegas lhe trouxeram a notícia que Jesus havia ressuscitado, Tomé suspeitou que seria “fake news” afinal, poderia também ser uma estratégia dos demais apóstolos para convence-lo a fugir e se esconder. Por fim, Jesus aparece para Tomé e então ele acredita na ressureição após ver com seus olhos.

Eu me identifiquei demais com a duvida de Tomé a ponto de conseguir defende-lo, afinal, precisamos acreditar como Tomé, para que não sejamos usados como massa de manobra.

Porém, essa não é a compreensão de Tomé preferida dos pastores, muitos divulgam que Tomé era fraco e sua atitude seria comparável com a de um traidor. Mas não se enganem, essa leitura tem endereço certo: inibir a capacidade dos fiéis de questionar o pseudo propagador da palavra de Deus.

Se você não for ao menos um pouco como Tomé, estará consumindo tudo o que lhe enfiam goela a baixo, nesse combo, tem coisas boas, mas tem também muito preconceito e manipulação. Afirmo categoricamente que, uma igreja onde um político como Jair Bolsonaro está, jamais terá Jesus presente. E se você achar que devemos estender isso para abranger todos os políticos, eu serei totalmente a favor.

Gravação

Desde os Delírios Musicais eu não havia lançado nenhuma música, “Acreditar Como Tomé” é meu primeiro single. Diferente dos Delírios, onde gravei tudo sozinho, desta vez, contei com o apoio da família Alves de Lazari nos vocais: Cris, e meus filhos; Isabela e Samuel que, além de cantarem comigo, também debateram o conteúdo da letra, algo que na visão da Cris, soava provocativo, apesar de concordarmos que a mensagem estava sendo transmitida com sucesso.

Após o lançamento virtual, que aconteceu no dia 08 de Agosto de 2022, algumas pessoas vieram conversar comigo sobre, uns dizendo não ter entendido sobre o que eu estava falando e outros elogiando o tema e a abordagem artística, enfatizando o Rap/Hip Hop, que apesar de ser um estilo que eu adoro, nunca havia me arriscado a canta-lo. Porém, falar sobre religião, não foi a primeira a vez, nos Delírios, tem uma música chamada “Paralamente” onde também falo sobre manipulação da fé, mas principalmente sobre filantropia.

Quanto às criticas, como previsto, por enquanto estão veladas, mas eu adoraria ouvir ou ler um contraponto, mesmo se fosse sobre o evolucionismo que conflita com as crenças dos criacionistas, sobre a compreensão de São Tomé ao qual confesso não ter me aprofundado tanto quanto deveria, ou mesmo sobre a minha falta de empatia com pastores que defendem a tortura e usam a fé para pedir votos. Comentem!

Para finalizar, cito Belchior, uma grande referência artística ao qual também indico que ouçam o episódio 50 do Clube da Música Autoral, onde, Cocão e eu, falamos sobre o amor de Belchior e suas várias lições para a construção de um mundo melhor. Antes de ser o famoso artista de Sobral, Bel passou sua juventude em um convento e era capaz de citar passagens da bíblia até em latim. Após largar o convento, foi para faculdade estudar medicina e no último ano, abandonou tudo para enfrentar a hegemonia cultural dos anos 70. Por toda sua vida, Belchior levou como lema “amar e mudar as coisas”. E é nisso que eu prefiro acreditar.

Se a minha música não te ofendeu, talvez ela o tenha influenciado a pensar sobre e, quem sabe até questionar, como um dia supostamente fez Tomé.

Para ouvir no Spotify:

Um comentário sobre “Sobre o que fala a música “Acreditar como Tomé”?

  1. “Amar e mudar as coisas”, me parece uma referência à um trecho de Karl Marx na tese onze sobre Feurbach. ” Até agora os filósofo se ocuparam em interpretar o mundo, o que importa agora é transformá-lo.” Adoraria ver você aprofundar na filosofia marxista. Para nossa comunidade recomendo acompanhar os canais do História Cabeluda que você já conheceu no Meteoro, do Gustavo Gaiofato , o João Carvalho, do assim disse o João, o Ian Neves, do história pública, e essa galera agora trabalham juntos no Soberana. Procure. No YouTube. Grande Abraço Gilson. Seu trabalho é fundamental!

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