Jovem é de esquerda, adulto é de centro e idoso é de direita, faz sentido?

Esses dias ouvi uma teoria que: Você é de “esquerda” quando é jovem, de “centro”, quando é adulto e “direita” quando fica velho. Inicialmente não fez muito sentido, porque conheço velhos de esquerda, jovens de direita, mas essa analise, um tanto quanto vaga sobre viés político ficou rondando meus pensamentos a ponto de me fazer tentar encontrar algum sentido nisso.

Primeiramente vamos analisar que, para se ter uma compreensão mínima dos impactos que as decisões políticas nos causam, o jovem precisa estar no mercado de trabalho ou ao menos ser um consumidor. Segundo as Diretrizes da Política Pública de 1990, um individuo considerado Jovem, tem a idade entre, 15 e 29 anos. Após esse período, somos considerados “adultos” entre aspas, porquê, isso realmente é muito relativo e eu acho que depende muito mais da personalidade. Mas enfim, com 30 anos até 59 anos, teríamos a faixa etária dos adultos. E por fim, a partir dos 60 anos somos idosos.
Porém, vale lembrar que houve uma alteração na Lei 5383/19, claro, com o objetivo de reformar a previdência e para ser considerado idoso, precisa estar acima dos 65 anos. A outra justificativa para essa atualização na lei, é que a expectativa média de vida do brasileiro aumentou para 80 anos mulheres e 73 homens.

O que as pesquisas nos dizem sobre isso?

Em 2021, o Poder Data realizou uma pesquisa sobre posicionamento político. Foram 2.500 entrevistas em 491 municípios de todos os estados e o resultado foi inconclusivo, o Brasil é uma pizza ideológica dividida em 4 partes iguais (segundo a margem de erro), sendo elas: esquerda, direita, centro e não sabem.

Um empate confuso, mas quando separamos algumas classes, começamos a ter um parâmetro melhor, por exemplo: entre os jovens até 24 anos a maioria (48%) se considera de centro, já entre os que tem 25 a 44 anos, a maioria é de esquerda (32%) e a partir dos 45 anos a direita predomina (34%).

A pesquisa Poder Data nos dá parâmetros técnicos sobre o tema, mas não consegue explicar a duvida inicial, muito menos cancela-la e para evoluir nossa compreensão precisamos também entender o que significa esquerda e direita para entender o ponto central.

Esquerda vs Direita

Após a Revolução Francesa, que ocorreu no século XVIII, o parlamento francês passou a se separar, do lado direito se sentavam os aristocratas representando a igreja, a burguesia e os interesses individuais enquanto do lado esquerdo, se sentavam as pessoas comuns, representando os camponeses e os interesses coletivos de quem até então não participava das decisões. Conforme os assuntos debatidos no parlamento foram tomando proporções de confronto, quem tinha duvida ou queria transmitir neutralidade, sentava-se no centro.

A democracia vem evoluindo ao longo dos anos colecionando erros e acertos que foram determinantes para refinar seus discursos e suas bases de apoio. O controle das massas através do principio político de convencimento vem evoluindo, mas ainda é frágil e sempre que a democracia foi ameaçada surgiram regimes totalitários. Alguns países até hoje estão sob o comando de ditadores que em comum subtraíram os processos democráticos. Por isso, falem bem ou falem mal, onde existe democracia, existe a possibilidade de mudança.

Por que o Jovem se identificaria mais com a esquerda?

Jovem que é jovem tende a questionar o modus operante, seja na sua casa, na escola ou na política. Questionar gerações ao tentar fazer diferente de como seu pai lhe ensinou, é da sua natureza. Ao mesmo tempo, eles também estão em busca de uma identidade. Jovens não parecem confusos, eles realmente são e anseiam por mudança, nessas, muitos acabam atraídos pelos desafios da esquerda; movimentos sociais, ambientais, feministas, LGBTs e etc, Esses movimentos são fundamentais para o convívio em sociedade, mas são dependentes da união dos pares. Para ter força, a esquerda precisa unir pessoas e conta com o apoio de artistas e intelectuais. A esquerda está em constante busca por espaço e mudança e é por isso que o espectro de esquerda é mais romântico e empolgante aos olhos dos jovens.

Por que o adulto se identificaria mais com o centro?

O adulto seria o jovem revendo algumas atitudes, por exemplo: as lutas e os conflitos do passado que, agora, na vida adulta repleta de responsabilidades, não faz tanto sentido. Como adulto, o ex-jovem passa a valorizar seu tempo integrando o sistema capitalista, agora seus esforços individuais são remunerados e ele está mais concentrado no bem estar de sua família do que no bem estar coletivo. O adulto ainda consegue ver a injustiça e a desigualdade, sabe que essa luta é justa, mas está ocupado demais ganhando dinheiro. Porém, talvez o principal motivo dele estar posicionado ao centro seja a flexibilidade, pois ser de centro, nada mais é que navegar entre os dois lados. Ser de centro não vai tira-lo de nenhum dos debates e diminui as chances do temível cancelamento em tempos de polarização. É por isso que o adulto maduro e responsável prefere estar no espectro central.

Por que o idoso se identifica mais com a direita?

O idoso acumulou conhecimento por toda a vida, trabalhou muito e guardou um bom dinheiro. Hoje ele preza por um estilo de vida sem muita emoção. Seus conhecimentos acumulados tem valor, mas muitos já estão ultrapassados e acompanhar a constante evolução representa ao idoso um certo desconforto. Ele até anseia por algumas mudanças, desde que sejam bem lentas.
O idoso está se preparando para o fim, então, provavelmente estará mais conectado com a religião que lhe trará palavras de conforto. Se ao seu lado existirem pessoas passando dificuldades, no máximo ele cogitará a filantropia. O idoso valoriza o dinheiro e os bens acumulados, mas não tem saúde para usufruir deles, vai ter que deixar para os filhos e netos, então, se preocupa com os rumos que a juventude esta tomando e sempre que possível tenta interferir. É por isso que o idoso esta no espectro de direita.

Sendo assim, a tese de que “jovem é de esquerda, adulto é de centro e idoso é de direita”, até que faz sentido. Claro, salvo as variações, que são muitas.

Tem quem discorda

Para o antropólogo e cientista social, Gustavo Dalla Déa, a tese não faz sentido, pois, essa visão associa esquerda e direita a uma ordem natural da vida. Jovens são mais impetuosos, adultos mais equilibrados e idosos mais acomodados. Atrela a uma visão de ação social.

Gustavo indica dar uma lida em Norberto Bobbio, um cientista político italiano, que escreveu um livro chamado “direita e esquerda; razões e significados de uma distinção política”(1994).

Em síntese ele pondera que atualmente a esquerda e direita querem chegar ao poder e acabam usando o mesmo “modus operanti”. Porém, o que distingue estes dois lados hoje em dia? Bobbio aponta a questão da busca pela liberdade e igualdade na sociedade. Direita considera que os homens são mais desiguais que iguais. Esquerda que os homens são mais iguais que desiguais. Igualitários partem da convicção de que a maior parte das desigualdades que o indignam são sociais, portanto, elimináveis. O inigualitário, por sua vez, é o oposto: as desigualdades são naturais e, portanto, inelimináveis.

Afirma Dalla Déa, citando Bobbio e completa chamando a atenção para o radicalismo da antítese:

Eu acredito que quanto mais liberdade e igualdade social a pessoa busca mais a esquerda ela estará, quando mais autoridade e desigualdade social a pessoa busca ela esta mais a direita. E isso determina sua ação social e seu posicionamento politico partidário.

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